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Crise existencial dos vinte e tantos



Cheguei em casa após mais um dia cheio de estresse no trabalho. Larguei a bolsa em cima do sofá e ignorei o celular que apitava notificações sem parar ao lado dela. Liguei o ventilador pra ver se melhorava o ambiente. Não tinha certeza se o mal estar e aquele calor insuportável vinham de fora ou de dentro, causados pelo nível de estresse elevado que eu portava nos últimos dias.

Abri a geladeira para servir um copo de água e tomar mais um remédio, e acabei encontrando lá dentro um fardo de cerveja que eu havia comprado para uma janta com os amigos. A qual, graças a minha rotina de trabalho, acabou sendo cancelada em cima da hora. Hesitei por um momento e fiquei ali, parada em frente à geladeira aberta. Talvez fosse indecisão. Talvez fosse prazer em sentir aquele frescor tão bom.

Sabia que aquela pilha de relatórios que me esperavam em cima da escrivaninha não iria sumir sozinha, mas sabia que aquelas garrafas também não.

Me peguei pensando no prazo de validade daquelas garrafas ali na minha frente. Pensei nas tantas vezes que devem ter sobrado garrafas na geladeira de outras pessoas quando eu ligava em cima da hora avisando que não poderia ir por causa de alguma reunião. Quantos meses fazia que eu não via ninguém que não pertencesse a minha rotina de trabalho? Quanto tempo fazia que eu não tirava um tempo para cuidar de mim?

Eu não sabia responder. Mas as cartelas de comprimidos para estresse que enchiam uma gaveta no banheiro eram um forte indicativo de que fazia tempo de mais.

Peguei uma das garrafas da geladeira e abri. A marca era a minha favorita do tempo de adolescência, aquele gostinho suave que eu tanto gostava. Ignorei a pilha de relatórios que parecia me encarar com ares de desaprovação e rumei com a minha cerveja para a sacada. Escolhi uma playlist calminha e coloquei no volume mais alto que meu celular aguentava. Esperava que o barulho externo pudesse diminuir a gritaria que se instalou aqui dentro.

Minha mente agora era habitada por uma tempestade de pensamentos intrusivos. Daqueles que nem a gente entende. Daqueles que a gente não quer ter.

Estava em meio a uma daquelas tão famosas crises existenciais que a gente tem quando é mais novo. Daquelas que a gente sente um vazio no peito que parece que nunca mais vai ser capaz de preencher. Mas veja lá se eu tenho idade pra ter esse tipo de coisa? Beirando a casa dos trinta e trabalhando 60 horas semanais eu é que não tenho tempo pra essas besteiras.

Pensei em sentar e escrever uma carta, como eu fazia nos tempos de adolescência sempre que a mente atormentava de mais com coisas que eu não saberia resolver. Eu ainda guardo todos os desabafos dessa época em uma daquelas caixas que ficam em cima do armário, junto com tantas outras cartas que recebi ao longo da vida, mas há tempos nenhum novo pedaço de papel entra lá, nem escrito por mim, nem endereçado a mim.

Lembrei das mensagens de “sinto sua falta” que recebi no último aniversário. Tão diferentes das que eu costumava receber, cheias de lembranças gostosas daqueles momentos mais simplórios do dia-a-dia e com muitos planos para o fim de semana. Lembrei que há muito tempo eu não mandava mensagem para ninguém, além daquelas típicas “enviei o relatório por email” que meu corretor já era capaz de escrever sozinho no exato momento em que eu abrisse a caixa de mensagens.

E aos poucos, mesmo sem ajuda de papel e caneta, a crise existencial foi passando, indo embora junto com a cerveja daquela garrafa, e aqui dentro foi se instalando toda aquela saudade. Saudade do tempo em que eu vivia para mim também, não só para os outros ou para um trabalho que não me compensava em nada além de uma conta permanente na farmácia perto de casa.

Porque afinal, a vida não pode se resumir em estresse e exclusão social para uma carreira promissora. Não pode se resumir em uma trajetória desgastante para um final incerto de sucesso. E se esse é o preço do sucesso, então será que vale mesmo a pena, será que está mesmo certo? Será mesmo que não existe um equilíbrio saudável nessa loucura toda?

Eram muitas perguntas para poucas respostas na minha cabeça. Mas era um desgaste e um cansaço que eu não queria mais sentir. Fui até o sofá buscar o celular que agora já havia parado de vibrar. 2 ligações não atendidas de uma amiga. Encarei mais uma vez a pilha de relatórios. E encarei mais uma vez tudo que chiava aqui dentro. Cedi. Nas últimas semanas eu não havia recebido nenhum ligação que não fosse a trabalho, já haviam desistido de mim há tempos. Duas ligações seguidas deviria ser algo importante demais para se ignorar. Liguei de volta e marquei de encontrá-la em 30 minutos.

Talvez eu fosse me arrepender amanhã, mas a pilha de trabalho que me esperava era um problema que eu resolveria depois. A minha saúde mental estava precisando de mim.


9 comentários:

  1. Que post maravilhoso! Retrata a vida de todos nós que estamos inundados de trabalho e vazios de felicidade. Amei o texto.
    Bjs

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  2. enquanto eu lia me deparei com como eu sou diferente das outras pessoas só pelo fato de não beber. problemas? tristeza? felicidade? comemoração? alcool! eu não! uma coisa tão simples que faz toda a vida e como lidar com os problemas ser diferente!!

    crises existenciais não tem idade, toda idade é idade pra ter, afinal existimos!

    mas sim, o certo foi sair com a amiga, afinal, as pilhas de papel já estavam ali quando tu chegou em casa hahaha a amiga não!
    beijos, até o/

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  3. Você está sempre se superando, fica difícil eleger qual dos seus textos é o meu preferido ❤️

    "Eu ainda guardo todos os desabafos dessa época em uma daquelas caixas que ficam em cima do armário, junto com tantas outras cartas que recebi ao longo da vida, mas há tempos nenhum novo pedaço de papel entra lá, nem escrito por mim, nem endereçado a mim."

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  4. Karoline, sempre que entro no teu blog, vejo um texto melhor que outro, e esse é sem dúvida um dos que mais amei! É preocupante que as pessoas entrem numa rotina como essa cada vez mais jovens, por isso a gente precisa mais do que nunca redefinir o conceito de "sucesso"...
    Um beijo!

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  5. Sempre que eu leio algum artigo sobre essa "geração meio perdida" que optou por fazer o que gosta, e não o que dá estabilidade, eu me questiono qual é o problema disso. Eu sei que as coisas estão difíceis e tudo mais, mas acho que se isso fosse valorizado mais pessoas conseguiriam alcançar um sucesso saudável e menos viveriam essa situação de viver pra trabalhar e, nos outros aspectos, apenas sobreviver.
    Adorei seu post! Os "vinte e tantos" têm me aterrorizado em vários sentidos, e o medo de viver essa situação é um deles!

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  6. Adoro o jeito como você escreve, expressa muito bem os sentimentos. E eu, uma pessoa que está em plena crise existencial dos vinte e tantos, não poderia ter achado mais excelente ler esse texto hoje.
    É engraçado como que nós tendemos a acreditar que nossos problemas são infinitos, nosso tempo finito e que, o importante é sempre dar conta de tudo.
    Às vezes, com um pequeno detalhe aqui e ali de diferente, mas no geralzão, todos passamos pelos mesmos problemas que a sociedade atual nos faz passar. É uma maré bem forte para se remar contra, mas não é impossível.
    Obrigada pelas palavras!
    xoxo

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  7. Oi Karol, tudo bem? Acredito que todas as pessoas passam por uma crise ou outra em algum momento da vida, seja pela carreira acadêmica, profissional, ou até em relação à família. Cada pessoa reage de uma forma diferente, ha aqueles que vão viajar, aqueles que se rebelam e viram a vida de cabeça para baixo, e aqueles que bebem para esquecer ou amenizar. Todos temos problemas em algum momento, no entanto é preciso olhá-los de frente e tentar agir da melhor forma possível. Eu por exemplo sou do tipo reflexiva, gosto muito de pensar rs sabe aquelas pessoas que gostam de ficar em silêncio meditando? Sou dessas :) Tudo se resolve quando encontramos um equilíbrio. Crise não há só nos 20, deve ter nos 30, 40, 50, ou em todos os anos da vida, só precisamos olhar isso sob um ângulo diferente. Parabéns mais uma vez pelo texto. Beijos, Érika ^-^

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  8. Esse é uma crise que cada vez mais atinge as pessoas, até mesmo aquelas que estão entrando na casa dos vinte ainda. Eu não trabalho, só estudo e faço alguns freelas, além de claro, cuidar do blog, canal e da "parte de vendas" do meu brechó online, mas no semestre passado eu tive de fazer muitas coisas, muitos trabalhos que deveriam ser em grupo (alguns até mesmo de cinco pessoas) sozinha, e isso me gerou um stress enorme, desenvolvi gastrite nervosa e insônia, tava sempre mal humorada e com dores no corpo, fui me afastando porque tinha muitas coisas pra fazer sempre e no final de tudo, quando entrei de férias, me dei conta de que tinham se passado seis meses e eu não tinha feito nada além de trabalhos, trabalhos e mais trabalhos, e com isso jurei a mim mesma que não faria mais, que iria me contentar com um 8, mas não iria me afastar das pessoas que gosto, das coisas que gosto, do prazer de ler, de conseguir dormir e comer alguma coisa sem depois ficar mal. Enfim, o nosso mundo atual tá o ó, muito stress, muita exigência, muita correria, e no final de tudo, a maior verdade é que a gente não vive, a gente sobrevive.

    blogdaumzoom.com

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  9. Assim como vocês, tenho vinte e poucos e estou vivendo isso há um tempo e eu já encontrei a resposta: eu não quero apenas sobreviver. Eu gostaria de viver, ou seja, de ter tempo e dinheiro de fazer o que eu bem entender, não importa o que seja. Ocorre que, assim como a maioria, eu não tenho esse direito. Eu preciso trabalhar todos os dias da semana e não tenho dinheiro o suficiente para me ausentar da cidade nos finais de semana. Então, a minha vida segue uma rotina em que eu não aproveito nada. É simples assim. Aí, como muitos, busco uma solução e não encontro. Afinal, eu preciso de dinheiro e tempo, mas como conseguir os dois ao mesmo tempo? Como diria a minha mãe: "todo o mundo vive assim, Marcelo." Ok. Eu entendo. Eu apenas não tenho prazer em viver assim. E se não há prazer, qual o sentido de continuar? Alguém pode dizer, como eu já li: "procure um hobby". Eu não quero uma ilusão de satisfação na minha vida, eu quero a plenitude. Eu quero acordar e decidir o que fazer dia após dia. Enfim, nada simples, nada que possa ser resolvido aqui. Apenas um desabafo.

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