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Precisamos falar sobre a ex do seu namorado



Amiga, senta aqui, vamos conversar. Tem um assunto que eu tô querendo te falar já faz um tempo. É sobre aquela história que o seu namorado adora te contar. Aquela sobre uma mulher louca, lembra? Aquela que grita por qualquer coisa. Que faz escândalo no meio da rua sem motivo algum. Aquela que fica querendo controlar a vida das pessoas. Desestabilizada. Paranoica. Obcecada. Invejosa. Que não sabe se por no seu lugar. Como era mesmo o nome dela? Ah, é. Ex-namorada.

Ela era parecida com você, sabia? Antes de eles começarem a namorar. Ia aos mesmos bares, dançava as mesmas músicas e muito provavelmente assistia aos mesmos filmes. Eu via ela por aí, tagarelando, sorrindo, dançando. Aproveitando a noite e os amigos. Aproveitando seu direito de sorrir. De ir e vir.

E numa dessas ela conheceu ele. Um doce de pessoa. Carinhoso, atencioso, sempre disposto a fazer ela sorrir. Tinhas umas cantadas um tanto quanto baratas, mas ela não ligava. Ele fazia ela feliz. 

Ligava de madrugada e dizia estar com saudades. Ia encontrar ela em qualquer lugar da cidade. Que sortuda ela era, encontrar um cara assim. Começaram a namorar. Ela apresentou pra família, contou pra tia, pro dindo pra prima. Só faltou soltar balões pelo céu de tão feliz que ela estava. Encontrou o cara certo. E esperou ansiosa pelo dia que ele decidisse dar esse passo também. E esperou, e esperou. Só que essa não foi uma atitude que ele tomou. Desviava do assunto sempre que ela perguntava. Dizia que era bobagem, que isso pouca importava.

As mensagens começaram a diminuir. Não recebia mais aquele bom dia gostoso toda manhã. Nem um seco, sequer. Não recebia nada. Sinal de vida só depois do meio dia. Ele dizia que tava ocupado, que tava corrido no trabalho. Mas que no fim de semana iam pegar aquela última sessão e isso já bastava pra acalmar seu coração, afinal, ela confiava nele. Ele era um cara legal, só não estava pronto ainda.

Depois do cinema ele sempre tinha alguma desculpa pra vazar. Parecia até que não queria ficar do lado dela. Tudo bem, talvez fosse só paranoia. Ele devia estar cansado, afinal, ele mesmo disse, o dia-a-dia tá puxado, talvez ele não tivesse fazendo nada errado. Mas a soma das noites que ela passou em claro preocupada não parava de aumentar. Depois da meia noite ele nada mais falava. Nem um boa noite. Nem um “não seu preocupa, eu tô bem” depois das mais de cem mensagens que ela mandava com o coração na mão. Nada. 

Nem sequer visualizava no whatsapp. Mas ele estava online, tava mostrando ali. Tudo bem, talvez fosse só paranoia. Esses programas dão a louca de vez em quando, já aconteceram outras vezes. Ele deve estar dormindo e ela se preocupando atoa. Ele precisava do espaço dele e ela não queria ser que nem a ex que vivia sufocando.

Na sexta-feira que ela marcava com as amigas pra ir beber ele surpreendentemente sempre ganhava folga. Ela achava engraçadinho, ironia do destino. E como eles nunca tinham esse tempinho juntos, acabava desmarcando pra assistirem em casa mesmo um filminho. O celular dele não parava de vibrar. Ela tinha lá seus limites e a curiosidade só sabia aumentar. Seria mais fácil perguntar pra ele o que tanto de mensagem ele recebia, mas não queria parecer desconfiada, ele não gostava disso, ela já sabia.

Esperou ele ir no banheiro e deu uma espiadinha no que tinha lá. Não eram os grupos de trabalho e do futebol, como ela queria acreditar. Tinha um monte de rostinho desconhecidos de batom. Mais de vinte, ela contou. Respirou fundo, mas não aguentou. Quando ele voltou pro quarto, ah, ela surtou. 

Gritou. Xingou. Chorou. Ela se desesperou. Ele disse que não era nada demais, que só tinha muita amiga. Ela respirou fundo mais algumas vezes e finalmente se acalmou. Pediu desculpas e disse que nunca mais ia agir daquela forma. Que não queria ser controladora. Ele disse que tudo bem, mas no fim se emburrou. Pegou suas coisas e foi pra casa. Disse que precisava pensar. Mais uma noite em claro pra conta. Depois de umas conversas meia boca eles ficaram bem.

Depois de um tempo sem se ver, foram tomar um sorvete no shopping. Esbarraram com uma loira que ela de cara reconheceu, era um dos rostinhos que ele tanto conversava no celular. A loira foi animada em direção a eles cumprimentar. “Não sabia que você tava namorando” ela disse. Ele ficou visivelmente irritado e logo saiu de perto. “Quem era aquela” ela quis saber. “Era minha ex.”

Ah, a ex louca. Maluca. Controladora. Que ele não queria nunca mais ver na vida. Que por alguma ironia, tava o tempo todo conversando com ela naquela droga daquele celular. Marcando de estudar. Aparentemente, mesmo depois de um ano ele ainda não havia contado que estava namorando. E então, ali mesmo, no meio do shopping lotado, ela se deu conta de que já fazia um ano que ele estava enrolando.

Nunca era hora de conhecer a família. Nunca era hora de postar uma foto juntos – pra que ficar mostrando nossa felicidade pros outros? Nunca era hora de fazer como ela queria.

E dessa vez não teve respiração, mantra ou qualquer coisa que acalmasse ela. Não teve conversa, não teve desculpa. Ela entrou em crise. Só não gritou porque o choro não deixou. Disse no melhor tom que podia que não queria mais saber. Que tava cansada de sofrer. Que tava cansada de se culpar pelos erros que ele cometia. E usou toda a força que ainda tinha pra implorar que ele nunca mais fosse lhe procurar.

É, ela surtou. Gritou, fez escândalo em público. Saiu correndo. E ela mesma acha que enlouqueceu. Enlouqueceu por não ter percebido tudo isso antes. Por achar que era especial. Por achar que tudo que ele fazia era normal. Enlouqueceu de cair nesse conto, de não desconfiar. De achar que que ele é o cara.

É, amiga. Ela é louca hoje em dia. Louca por si mesma. Vi esses dias ela lá no bar, numa das noites que você ligou em cima da hora pra cancelar. Tava rindo, dançando, bebendo e aproveitando a companhia dos amigos. Até trocou uma ideia comigo, me contou direitinho tudo que aconteceu. E disse que doeu, mas que fez bem. Que toda mulher encontra um cara desses no caminho e que leva de lição aprender a ser feliz consigo mesma. 

E eu lembrei que você mandou mensagem uns dias atrás, dizendo que tava cansada de esperar, que parecia que ele nunca ia te apresentar. Eu não queria ser portadora de más notícias, sabe como eu sou, mas amiga, eu acho que ele não quer te apresentar. Talvez você fique enfurecida de eu dizer isso, mas talvez a história de vocês seja parecida.


Um comentário:

  1. Como diz ali, na vida, sempre encontramos um ou outro assim. Adorei demais o texto! Longo, mas li cada palavra. E olha que nem sou tão fã de textão, kkk.


    Beijos,
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