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Explode caixa torácica



Explode caixa torácica. Passa por mim a ventania do adeus. Destrói. Nada fica em pé. Na corrente sanguínea, adrenalina e veneno. Me matando aos poucos. E ainda continuo vivo. Vou vagando no desfalecer que me desfigura.

No pensamento, carrego todas as nossas lembranças. O sorriso do passado, vai me mutilando entre as lágrimas ácidas da saudade. Nunca estarei preparado para este fim. Ninguém está. Dar flores neste dia, se torna dor. Os abraços ficaram nos traços do ontem e no amanhã só haverá os meus pedidos no vazio. Uma lacuna que não se preenche nem com o sofrimento que repousa e grita na alma.

Queria outros segredos, outros encontros. Queria o poder de desprezar as despedidas, mas sou feito de sentimentos. Me recuso dizer adeus. Ela não poderia partir. O mundo não tem o direito de me obrigar. A vida não pode ser tão audaciosa e negar as minhas vontades. Eu deveria ser dono da minha história. Deveria escrever o que quero para o hoje e para o amanhã. Não aceito que escrevam por mim.

Recuso todas as letras dessa catástrofe. Levaram parte de mim e ela na sua integridade. Roubaram o pouco de dignidade que ainda me restava. Roubaram meus risos. Devolveram dias frios, nublados e ao mesmo tempo, chuvosos. Não adianta o sol brilhar um dia. Em quarenta graus, a chuva permanecerá me molhando. Acidez. Corrói. Saudades marca como brasa. Perfura. Morde e assopra. Arranca meus versos e me entrega a pobreza de se sentir só. Saudade. Sal que arde. Sal que invade. Ardida invasão. Invasão alarde.

Ah, leve meu corpo em pedaços, mas não faça que eu diga adeus. Acabe com esse teatro barato. Feche o túmulo. Deixe- o vazio. Devolva a minha alma. Deixe as flores florescendo no jardim, não as permitam murchar e faça com que eu abandone a palidez. Apague as homenagens. Recorra as notícias. Promova meu palpável encontro. Permita que eu faça a fotografia real. Não a cubra com essa maquiagem fúnebre.

Parem de chorar! Ela vai ficar aqui. Ela não vai embora. Não vou deixar. Rasga o meu peito. Enfie as mãos na caixa torácica. Arranque o coração. Só não me deixe aqui. Só não me deixe obrigado a me despedir. Olhando nos olhos dela e sem enxergar o meu reflexo. Vê-la como uma flor em meio das flores, sem expressão. Por favor, não seja a crueldade.

Mas, espere um pouco. Por que imploro por piedade? O mundo não importa com os meus sentimentos. Eles cavam. A noite chega. Cada segundo é como se ajustassem a metralhadora para seu trabalho final. E eu, já não sou eu. Me tornei um rascunho. O escarro. O verme sem vontades. A alma sem face. A dor que tem medo da dor. E só eu sei o quanto dói. Eu a queria aqui. Mas não deixaram eu fazer nada. Não deixaram que eu lutasse. Não deixaram que eu entregasse a vida. Só me avisaram do acontecido. Jogaram palavras frias e xeque mate. Liquidado. Te esconderam. Madeiras invernizadas. Guardiãs de flores. De sonhos. Gritos ecoam além da boca. Lágrimas secam. Decretam o meu fim. Tijolo por tijolo. Punhalada no peito. Tijolo por tijolo. A distância. Tijolo por tijolo.

A deixaram na escuridão e roubaram a minha luz. Um novo dia não nascerá. Nada. Mais nada nascerá. Roubaram a nossa amizade. Inocência. Cumplicidade. E até hoje somos recíprocos. Em uma palavra. Vermes. Devoradores. O que muda. Sou devorado em vida.









Um comentário:

  1. Nossa que texto! Fiquei curiosa quando vi o título, e aí chego aqui e me deparo com esse texto maravilhoso. Confesso que perdi em alguns trechos porque parei e fiquei pensando em algumas situações que já vivi, e aí eu voltava novamente ao texto depois de me refazer das minhas reflexões.
    Parabéns!
    Bjs

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