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Barcos à deriva



Não se apoie em mim, por que eu já caí e não quero levar você junto na próxima, nem ter que te ajudar a levantar quando eu não me suporto sobre meus joelhos. Não espere de mim as coisas que procura em alguém, eu não tenho nada a te oferecer, nem terei no futuro. Talvez o que você precise seja o mesmo que eu, mas dois famintos não jantam melhor, apenas mínguam juntos.

Não espere que eu cuide de suas enfermidades, eu sou um doente crônico, tentando cuidar de si, como quem tenta enxugar com panos o chão de um navio prestes a afundar, recusando-se a aceitar que talvez seja o fim. Não pense que as coisas hão de mudar para melhor, eu não sei se onde estou é o fundo do poço ou se ainda há um alçapão, ás vezes ele é a única saída possível. Você não tem que vir junto comigo, nunca te pedirei isso, nem te pegarei pela mão.

Não sinta pena, nunca precisei dela e ela pode te prender a mim, assim como laços que você tenta criar, eu farei o mesmo em relação a você. Não viva das minhas migalhas quando há tantos banquetes esperando por ti, aos olhos e boca de quem vive de restos de pão, ossos de galinha podem parecer ágapes. Só se pode dar ao outro aquilo que lhe sobra, e eu mal tenho para passar os dias.

Não faça de mim seu porto seguro, eu também sou um barco de passagem pela noite, a procura de um farol para se guiar, sem norte, esperando que as pedras no fundo do mar não furem meu casco definitivamente. Não navegue próxima de mim, em algum momento iremos colidir e afogaremos um ao outro, num fim dramático, comidos por tubarões de expectativas.


Um comentário:

  1. AAAAAAH, que texto mais lindo! É exatamente como me sinto muitas vezes, ainda mais em relação a outras pessoas entrarem na minha vida.

    Beijos,
    Última postagemFanpage

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