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O abismo de si mesmo

O abismo de si mesmo


O som dos trovões nesse domingo de chuva fez as paredes vibrarem, pareciam conversar, como há muito tempo não faziam, como há muito tempo eu não fazia. Como se finalmente respondessem todos meus monólogos em meio a elas, nos dias que não havia ninguém para ouvi-los. Sentei-me frente à janela, para olhar os pingos descerem pelo vidro enquanto escutava suas conversas, o entretenimento dos desacompanhados, adivinhar as gotas que chegarão primeiro ao fim.

Nesse momento o tempo parece correr diferente, como o primeiro beijo de um casal, como um bom livro, como a maioria dos momentos felizes. A solidão, por vezes, tráz o mesmo sentimento da ansiedade: muda o tempo através da impaciência com o desconhecido, porém, ao invés do oculto ser o futuro, ele se encontra no olhar para o abismo de si mesmo.

O terror de olhar pra dentro e ver tanto com os olhos abertos quanto fechados, o mesmo nada. Ouvir os ecos e nenhuma resposta, como as paredes costumam fazer. Olhar para o seu próprio abismo é como fazer uma cirurgia em si mesmo, sem anestesia e no escuro. Parece aquele momento de tensão em um filme genérico de terror, quando a trilha sonora diminui o volume e o personagem principal vai olhar atrás da cortina, você não sabe se vai sentir alívio ou enterrar as unhas no estofado da cadeira.

Talvez Freud tenha razão de que sua mente lhe aplicará truques contra aquilo que não lhe é desejado, as feridas que não quer fechar pelo simples medo de olhá-las. As dores que não quer sarar pelo medo de lembrá-las. Para o abismo elas vão, para sempre lá, para sempre abertas. Até o dia que resolver fazer pontos nos cortes, de estômago embrulhado e olhos embotados.


Linha.

Agulha.

Calma.

"Acho melhor eu recolher as roupas do varal."


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