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Sobre caixas e cartas de amor

Sobre caixas e cartas de amor


Tenho muitas caixas espalhadas pelo meu apartamento. Sempre gostei de caixas. São bonitas e misteriosas. Uma caixa toda decorada e colorida pode guardar algo doloroso dentro. Ou não guardar nada. Enquanto uma simples caixa velha, com os cantos esfolados, pode guardar belas histórias de amor. 

Dentre todas as minhas caixas, tenho uma favorita. Não é a mais bonita, nem a maior, nem a mais delicada. É uma caixa prateada, com um pequeno elástico azul que tenho comigo há mais de uma década. Nela, guardo cartas de amor. 

Mas não são cartas quaisquer, não são cartas que recebi, onde não sei se as juras de amor são sinceras. São as que escrevi. São as que nunca enviei. 





Sempre fui uma dessas pessoas que escrevem cartas de amor. Nunca fui uma dessas pessoas que enviam cartas de amor. Então, durante os anos fui acumulando além de histórias, pequenas pilhas de papéis dobrados dentro de envelopes. 

O meu problema é que costumo me iludir muito fácil com essa história de amor, e, por favor, não me interprete errado, eu não acho ruim ver amor em todo canto. O problema está na parte de armazenar os resquícios de cada um desses amores. 

Hoje pela manhã, coloquei mais uma pequena carta em minha caixa. E percebi que já não cabem ali mais muitas cartas de amor. Isso é um pouco assustador, se quer saber. Ao mesmo tempo em que isso me mostra que tenho muitas histórias para contar, também me faz pensar que elas podem estar acabando. Deveria eu comprar uma caixa maior? Ou deveria eu, escrever menos cartas de amor?

A última carta que guardei em minha caixa falava sobre Leonardo. Conheci Leonardo um mês atrás, numa festa que nem sei porque fui. Mas fui. E ele também. E nos encontramos na pista ao som de uma música qualquer, mas que nas semanas seguintes pareciam, pra mim, a melhor música do mundo. 

Quer dizer, que loucura conhecer alguém assim. Eu não queria estar lá, mas estava, porque já tinha prometido ir. Ele também não queria estar, mas não queria furar o compromisso com seus amigos. E nos encontramos. Eu poderia não ter ido. Ou ele poderia não ter ido. E não teríamos nos encontrado. Mas nos encontramos. No meio de centenas de outras pessoas que também queriam encontrar alguém, nós nos encontramos. E isso só poderia ser coisa do destino. 

Leonardo era divertido. Mas não daquele tipo forçado, que procura o tempo todo alguma brecha pra fazer piada e chamar atenção. Leonardo era o tipo que não precisa se esforçar pra ter atenção. Pelo menos, a minha. Ele a tinha inteira. Era bonito também, com um sorriso de canto provocativo e sobrancelhas grossas, que davam um ar de sério para ele. 

Leonardo me escreveu no dia seguinte: “foi ótimo ter te conhecido ontem”. E me chamou para sair. Nos vimos três vezes naquela semana. Fomos ao cinema, comemos pizza, compramos livros um para o outro num sebo aqui perto e dividimos o espaço da minha cama a noite toda em duas dessas vezes. 

Na semana seguinte, decidimos que poderíamos começar a assistir um seriado juntos. Assistir um seriado com alguém é um grande sinal de compromisso. Significa além de confiar na pessoa, de que ela vai esperar pra ver com você, que vocês dois tem planos de continuar se vendo por mais algum tempo, pelo menos. Escolhemos um seriado curto. E já nessa segunda semana, assistimos a primeira temporada inteira. Foram quatro noites em que dormimos juntos. Duas na minha casa, duas na casa dele. 

Na terceira semana fomos ao boliche, ao teatro e cozinhamos juntos. Também decidimos que já estava na hora de conhecermos os amigos um do outro, formalmente. Fizemos uma janta no meu apartamento e convidamos meus amigos e os amigos deles. Rimos, bebemos e cantamos karaokê. Terminamos a segunda e a terceira temporada do seriado, também. 

Na quarta semana, ele me escreveu de novo: “foi ótimo te conhecer, mas acho que estamos indo rápido demais e não estou pronto para isso”. Não nos vimos nenhuma vez nessa semana. Leonardo não respondeu minha mensagem perguntando o que tinha acontecido nem atendeu minha ligação, no próximo dia que havíamos combinado de nos vermos. Leonardo desapareceu. E eu não sou dessas pessoas que ficam insistindo. Esperei alguns dias a resposta da mensagem, ou alguma explicação, mas elas simplesmente não vieram. Então, ao fim da quarta semana, eu escrevi. 

Peguei o papel de carta mais bonito que eu tinha. Era azul, como os olhos de Leonardo. Na carta, contei dos planos que ainda tinha e do pacote de marshmallows que tinha comprado praquele acampamento que tínhamos comentado. Contei que gostaria de compor uma música com ele -eu sempre escrevi, ele sempre tocou – e de como estava pensando em separar uma gaveta pra ele aqui. Contei que terminei aquele livro que ele me indicou e que na verdade, não era bem o meu estilo. Contei também do seriado que terminei de assistir sozinha nessas últimas noites em que não conseguia dormir porque não entendia o que tinha acontecido. 

Contei tudo que eu estava sentindo e sobre como esperava que ele não saísse da minha vida, pelo menos não tão logo. Quer dizer, a gente tinha se encontrado. Não podia ser coincidência. Contei como eu acreditava que poderíamos ter uma grande história de amor. E, fala sério, a gente tinha um seriado pra terminar. Não se larga um parceiro de seriado assim. Xinguei elegantemente Leonardo, com os adjetivos pejorativos mais finos que conhecia e assinei meu nome na última linha da folha. 

Dobrei o papel duas vezes e o coloquei num envelope preto. Todos os envelopes naquela caixa são pretos, uma pequena forma de luto pelo amor que enterro ali. Guardei a carta, endereçada mas jamais enviada, na caixa e deletei o contato de Leonardo. 

Coloquei a caixa prateada de volta no lugar, deixo ela numa pequena mesinha de canto, sozinha. Considero ela um pequeno cemitério de amores particular, e, portanto, considero que ela merece um lugar especial para se estar. Fechei com cuidado o elástico azul para que não amassasse nenhuma das cartas que estavam lá e saí comprar uma nova caixa.

Karoline Krahl

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