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Para o garoto que tentou me quebrar

 
Para o garoto que tentou me quebrar, ou, um texto sobre como eu me redescobri depois de um relacionamento abusivo.

Parabéns, você conseguiu.

Você quebrou a confiança em mim durante o início do meu primeiro ano na faculdade. Eu tive que começar de novo, pegar as peças que você deixou para trás quando eu finalmente tive a coragem de deixar você.

Você derramou sal na ferida aberta quando você mandou uma mensagem uma semana depois, perguntando se poderíamos ser amigos. Eu estava tão ocupada tentando fazer você feliz que eu me esqueci de mim.

Mas vamos do começo.

Eu já caí de cabeça para você. Eu pensei que você gostasse de mim também. Eu nunca tinha me apaixonado antes, mas tinha certeza de que você era o único, era o segundo ano do ensino médio quando a gente começou a namorar.

Você morava em outra cidade e eu me sentia a melhor garota do mundo porque você vinha me ver todas as semanas.

No segundo ano do nosso relacionamento você admitiu para mim que você não tinha sentimentos por mim no começo, era só interesse sexual, eu era virgem, mas muito curiosa sobre o assunto e você se aproveitou disso. 

Aquilo tinha sido unilateral, mas você me convidou para sair de qualquer maneira e... bem, me pediu em namoro.

Não me lembro quando você alegou que se apaixonou por mim ou como confessou seus sentimentos.
Depois de um tempo, você dizia eu te amo em qualquer ocasião, aquelas palavras que eu sempre quis ouvir, deixaram de ter importância, mas você sabia que era por causa delas que eu continuava ali.

Eu pensei que minha vida era como um conto de fadas. Nós dois contra o mundo e minha vida começava a mudar. Eu estava pronta para me jogar no mundo.

Eu deveria ter reparado no jeito que você olhou para mim, quando você começou a notar que eu estava mudando. Você nunca gostou de mudar.

Você me perguntou enquanto estávamos sentados em um McDonald's, onde me via em dez anos. Eu respondi que não sabia.

Minha vida estava mudando. Parei de pensar que minha única escolha era me formar, trabalhar nun escritório de contabilidade, casar e me estabelecer em uma cidade pequena, talvez me mudar para morar com você. 

Eu queria fazer mais.

Um mês depois do meu primeiro semestre, comecei a pensar por mim mesma para variar. Comecei a pensar fora da caixa e a explorar quem eu poderia ser, em vez de me concentrar em quem sou.

Eu comecei a sonhar em viajar pelo mundo. Eu queria publicar romances, desenhar e lutar por um trabalho que eu amaria em vez de me contentar com menos. Eu aprendi que era bom não querer seguir o caminho que meus pais queriam para mim, que eu poderia fazer mais da minha vida.

Eu falei mais e fiz amigos. Pela primeira vez na minha vida, percebi que estava com fome de conexões, até então eu era a garota tímida, mas eu percebi que essa pessoa já nem existia, eu gostava de conversar e não tinha mais vergonha de me aproximar de estranhos para falar.

Você permaneceu estagnado. Você não queria deixar sua pequena cidade natal. Seus sonhos foram limitados à ideia de continuar tocando contra baixo numa banda que você sabia que nunca ia passar de um sonho, vocês ensaiavam uma vez por mês.

Talvez tenha sido a falta de controle em sua própria vida que o levou a tentar controlar a minha, a controlar nosso relacionamento. Eu nunca saberei.

O que eu sei é que naquele ano você mudou. Eu lembro de chorar depois que você me deixava em casa, com o peito apertado pela ansiedade sobre as coisas que você disse, não foi intencional, eu dizia para mim mesma.

Mas parece que você fazia questão de me colocar para baixo toda vida.

Houveram dias de silêncio em que você apenas ficou lá sentado olhando para o nada, você estava ali comigo?. Quando você não ficava assim, você abria a boca e me dizia que eu não era mais a garota que você conhecia.

Mas a gente muda, né?

Ainda me lembro daquele dia. Estávamos sentados no sofá. Eu não deveria ter ficado surpresa. Você queria sexo e eu sabia que você sempre ficava chateado quando eu dizia não.

Você ficava zangado como uma criança que teve seu brinquedo favorito levado embora. Sempre assim. O silêncio me contou tudo o que eu precisava saber. Você sempre jogou o jogo do silencio quando estava com raiva.

Perdi a conta de quantas vezes você me culpou pelo sexo. Toda vez que você me perguntaria depois se estava tudo bem. Eu te disse que estava "bem".

Nunca foi bom, mas acho que você nunca se importou.

Eu costumava pensar que talvez houvesse algo errado comigo. Eu costumava estar no mesmo "feeling" que você, mas agora estar perto de você parecia uma missão.

Eu contava os minutos até que fosse um momento aceitável para dizer tchau. Eu desliguei minha mente na cama e fiz um esforço para te fazer feliz. Isso é o que uma namorada deve fazer, certo?

Eu me sinto como uma idiota pensando nos dias em que me deitei naquela cama me sentindo desconfortável com suas mãos me tocando, quando eu não queria ser tocada.

Eu acho que você pensou que você era tudo que eu precisava na minha vida. Afinal, você não fez nenhuma tentativa de fazer amigos depois que a escola acabou. Em vez disso, você esperou toda semana até que pudesse me ver nos finais de semana.

Como se fosse meu trabalho te manter feliz.

Eu não liguei por uma semana.

Quando eu liguei, sabia que era hora de dizer Adeus.

Eu fiz o aparentemente impossível. Eu tinha deixado você ir. Eu te deixei. Mas em contrapartida, fui deixada para pegar os pedaços de quem eu era antes de você entrar na minha vida.

Era como se eu tivesse sido despedaçada e forçada a costurar os pedaços de novo, mas eu sempre falhava. Eu me cansei das coisas que eu costumava amar.

A vida parecia uma missão impossível.

Como você se recupera depois de um abuso emocional? Me falaram para escrever sobre isso, "escrever ajuda a colocar a mente em ordem".

“Você” era o elefante na sala. Minha ansiedade. Meus medos.

Você.

Naquele dia, com o caderno em mãos dei meu primeiro passo para recuperar as peças deixadas para trás depois que deixei você e desde então eu continuo recuperando e montando meu quebra-cabeças, mas sinto que estou voltado a ser eu mesma.

Gosta de Blogs de textos? Não esquece de visitar o Gotas de café, eu sou a Cecilia Mesquita e também sou autora lá!

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