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Não escreva sobre mim



Você me disse "não escreva sobre mim", enquanto terminava de calçar seus sapatos na manhã seguinte de um encontro que desandou até a minha cama.

Minha primeira reação foi rir de você e da sua prepotência em achar que algo sobre a noite anterior seria interessante o suficiente pra me colocar sentada frente ao computador e escrever.

Depois, ri de mim, por acreditar, mesmo que por um breve momento, que não havia sido.

Ri de mim pelo meu ego ferido e falsa arrogância quando pensei num tom quase debochado que eu não tinha nada para escrever sobre ti. Como se eu já não estivesse ensaiando trechos sobre teus cabelos bagunçados e repassando mentalmente o embaralhado do som de nossas risadas se misturando.

Você desceu as escadas e se despediu com um pequeno aceno e um sorriso tímido de quem não sabia se aquele era um até logo ou um até nunca mais. E eu voltei pro meu quarto com a mesma dúvida. E um café.

Sentei-me na minha escrivaninha e peguei o primeiro bloco de notas que encontrei ali.

"Não escreva sobre mim."

Ensaiei algumas frases sobre a camiseta que você usava, que era tão a sua cara, mesmo que eu não fizesse ideia sobre o que, de fato, é tão a sua cara. Joguei algumas poucas palavras sobre seu cabelo desgrenhado pela manhã e sobre o seu senso de humor. Devaneei inventando gostos e hobbies para você. Destrinchei em palavras soltas e sentenças desconexas um você que eu não conhecia.

Um você que nem bem chegou e já avisou que não pretende ficar, um você que nem se instalou e já quis fugir. Um você, que nem deu tempo de ser lembrado e já quis ser esquecido.

Aquele "não escreva sobre mim" ecoando sem parar na minha cabeça, na vontade de descobrir o que de você há para escrever.


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