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É madrugada de sábado e eu estou sentado na mesa do quintal da minha casa com meu caderno de textos e aquela caneta que você achava sensacional só por ser tinteiro. Fui despertado no meio da noite por uma mensagem e não consegui mais dormir; e como todo bom poeta, sentei para escrever e ver se entendia o que eu mesmo sentia naquele momento.

Era por volta da 1h30 da manhã quando meu telefone apitou e, ainda ensonado e sem mal conseguir abrir os olhos por conta do ventilador, eu li a seguinte mensagem: “Cara, encontrei sua ex no role e achei que deveria te falar: ela ficou com um cara aqui”. Li a mensagem, mas não respondi. Levantei, lavei o rosto e li outra vez – é, era realmente aquilo que eu tinha acabado de ler.

Fazia algum tempo já que havíamos terminado – talvez três meses e alguns dias, nunca fui bom com datas – e você finalmente tinha se aventurado em conhecer outra boca que não a minha. Não me perguntem como, mas eu sabia que este era o primeiro beijo que você dava depois de nós. Eu não soube direito o que sentir... Não fiquei bravo, não senti ciúme... A verdade é que eu não soube o que sentir.

Deve ter sido estranho para você – o primeiro beijo sempre é. Ele deve ter te convidado e você deve ter planejado o encontro com as amigas durante a semana toda. Receosa, pensativa, mas resoluta a ir – Me sinto grato por ter participado da sua vida e saber o que é ver você ansiosa para algo que você sente um pouco de medo, mas mesmo assim quer fazer.

Imagino você tomando seu banho demorado quando o relógio bateu 18h, como você sempre faz. 

Você, então, sai de toalha do banho, coloca seu pijama e passa a tratar do cabelo que sequer precisaria de tanto cuidado. Depois do cabelo vinha a maquiagem – Eu sempre preferi seu rosto nu -. Você termina a maquiagem e então a próxima hora é dedicada à escolha da roupa – Se eu pudesse escolher, diria para você colocar aquela calça vinho que eu te dei, a camisa creme listradinha e aquele salto vermelho fatal.

É perto de 20h30 e você está lá, mais linda do que nunca, escolhendo entre a sua bolsinha creme que carrega consigo pra todo lado e a vermelha que te dei de um ano de namoro – Como sempre, a bolsinha creme ganha.

Você então senta na sala. Inquieta, você cruza as penas e passa a falar com sua melhor amiga. Ela namora e não estará lá com você hoje. Você comenta a decisão de dar mais um passo para seguir em frente e ela apoia dizendo que eu sou um galinha e que já devo ter “pegado meio mundo”.

Sua carona chega. É aquele menino da faculdade que sempre buscou se aproximar de você. Vocês vão para o Cambuí – eu nunca consegui te levar nos barzinhos de lá, sempre faltou verba -. O rapaz é bonito... Apesar de não ter os ombros largos que você tanto gosta, tem as maçãs do rosto altas e um sorriso tímido. Diferente de mim ele fala baixo e você gosta daquilo; ele não tem a voz rouca que te punha para ninar, mas sua tonalidade mansa é algo gostoso de se ouvir.

Enquanto ele fala dos projetos que a faculdade de engenharia exige e, buscando uma aproximação, diz que “um arquiteto e um engenheiro, quando trabalhando juntos, fazem melhor”, você divaga pensando na leve saudade que a poesia da minha voz te trás. Você sorri ao lembrar e ele diz que você tem “um sorriso bonito”. Isso te faz lembrar do que eu sempre disse: “Namore um Poeta, e você nunca mais se contentará com qualquer Zé dizendo que seu sorriso é bonito”. – De fato eu falaria diferente, mas isso não é sobre mim.

A noite é gostosa. Ele é um bom homem. Cavalheiro, sabe conversar, sabe se portar e é alguém que você talvez até se apaixonaria num outro momento, mas não agora. Agora você ainda passa a noite lembrando do que passou; agora, ainda você vê a caneta no bolso do garçom e lembra das vezes onde eu pedia a caneta da chefia do lancheiro e rabiscava versinhos no guardanapo só para te ver sorrir.

Vocês terminam a sobremesa, ele te oferece um chiclete, vocês conversam um pouco mais e então ele te beija. O beijo é estranho. Bom, mas estranho. Aquela não é a sua boca, as sensações são diferentes. O peito aperta, o estômago embrulha, as pernas amolecem e nem é pelo motivo certo. A princípio, você se sente como que me traindo, mas se lembra de que não estamos mais juntos.

Vocês entram no carro. Ele dirige com a mão na sua perna e você se vê distante, imersa em seus pensamentos. "Não é justo com ele" – você pensa; "afinal, ele é um bom homem." Ele te deixa em casa, você o beija mais uma vez, agradece pela noite e corre para dentro do quarto. Já é tarde e você chora baixinho. O dia clareou e você ainda não dormiu. Abre meu Instagram, vê num stories que eu estava acordado e escrevendo. “Eu queria poder ler...” – você pensa.

E eu sei menina, de todas estas sensações. Eu sei por que aconteceu comigo. Eu sei por que eu também não estava preparado para seguir em frente, mas quem está? A cada passo que damos a ferida cicatriza um pouco, a lembrança fica mais curta e as sensações parecem ser mais honestas.

É verdade menina, que quando o fim chega e vem o novo começo, é sempre difícil. Ele nunca será eu – e você precisa entender que isso é ótimo. Os novos inícios são sempre melancólicos, mas um brinde a eles – sem eles. nossa vida seria um imenso final sem data pra acabar.




Um comentário:

  1. Os finais costumam formigar no estômago, completamente diferente das borboletas dos recomeços. A gente acha que nunca está pronto para deixar para trás e seguir em frente, até que a gente segue. É diferente, é novo, arranca-nos da nossa aconchegante zona de conforto, mas é necessário. Afinal, "sem eles, nossa vida seria um imenso final sem data pra acabar."

    Com carinho, Beca;
    Café de Beira de Estrada

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