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Você é grande demais, menina.


Menina, eu não me apaixono. Essa sempre foi a máxima da minha vida – pelo menos vida adulta. Depois de tanto sofrer, de tanto errar, decidi me privar e preservar minha sanidade mental e emocional. E tudo estava bem assim. Eu vivia sozinho e feliz; hora acompanhado, hora não. Conhecia todos os bares da cidade e era conhecido em todos eles. Declamava minhas poesias em qualquer ouvido e tudo estava bem assim.

Tudo estava bem, até aquele dia – bendito ou maldito dia – quando eu entrei naquele salão. Um amigo estava casando e eu, que nunca gostei destas coisas, apareci apenas para a festa. Quem sabe comer bem, conhecer alguém e dançar um pouco... nunca se sabe o que a noite nos reserva.

A festa estava boa, as risadas estavam altas, a gravata já havia passado e todos já haviam voltado para as mesas esperando a sobremesa. Tudo já estava no fim e quando ninguém mais esperava nada daquela festa, eis que surge uma voz, como quem não quer nada, arranhando algumas palavras em inglês no microfone.

Era você, com seu vestido preto de costas abertas. Seu cabelo caía, quase que desenhado, por cima de seu ombro direito, dando vazão às três pintinhas que você tem no braço esquerdo.

Eu lembro como se fosse hoje as sensações sentidas ao pousar meus olhos sobre você... Como pode alguém tão pequena, no alto de seus um metro e meio, ter uma voz tão linda? E você ainda cantarolava como quem ainda tem uma centena de sonhos para cumprir, como se aquele show tivesse sido ensaiado por tantas vezes na solidão de si mesma que, agora, ao subir no palco, soasse tão natural quanto seria você cantando sozinha pelos corredores do apartamento.

“Eu poderia ouvir você cantando para mim pelo resto da minha vida” – foi o que eu disse, no pé do seu ouvido, quando cheguei por trás de você, quando a festa já havia acabado. 

Você sorriu. Não sei porque, mas sorriu. Até hoje me pergunto o que foi que você viu em mim. Qual pode ter sido a razão de alguém tão espetacular ter deixado alguém tão comum, como eu, entrar e fazer morada no coração?  Sinceramente, não sei dizer. Nunca houve nada mulher, nada que eu pudesse te oferecer que você já não tivesse ou não fizesse melhor que eu. Você era você e você era única, senhora de si e a mulher mais talentosa que eu já conheci.

Hoje fazem exatamente 432 dias desde sua partida e fazem 432 dias desde que meu coração se fez em pedaços ao te ver entrar naquele avião. Eu já devia saber que você era grande demais para se manter aqui. Você sempre foi do mundo e eu sabia disso desde o momento em que você me contou que todos os dias, antes de dormir, procurava a lua e olhava para ela, pensando que haviam milhões de outras pessoas olhando para a mesma lua ao redor do mundo, junto com você.

Você foi embora e eu nem posso te culpar. Teu sonho de cuidar das crianças do orfanato de Uganda é muito mais nobre que qualquer coisa que um dia eu posso ter pensado e eu sei que você não vai mais voltar – você me avisou antes de partir.

Mas menina... lembra aquela sua mania de deitar na cama antes de dormir e pensar em milhares de cenas que, provavelmente, nunca irão acontecer? Então... hoje eu deito na cama, procuro a lua e imagino uma cena que provavelmente nunca irá acontecer: nela você vem com esses teus olhos de pôr-do-sol e esse sorriso espraiado tão particular de você. Nela eu te abraço mais uma vez e digo o que eu nunca tive coragem de dizer... digo que eu, que nunca me apaixono, perdi meu coração no teu e hoje, após 432 dias, não consigo parar de pensar em você.




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