Ads Top

Café morno, amores mornos

Karoline Krahl - Entre Cartas e Amores


Me peguei pensando em você enquanto virava a esquina que leva para a minha padaria favorita. Lembrei de como você nunca entendeu porque eu acordava mais cedo todas as manhãs e caminhava aquelas três quadras para buscar pães para o café da manhã se poderia comprar os mesmos pães no dia anterior, quando passasse na frente da padaria voltando do trabalho. 

Você nunca entendeu também quando eu tentava lhe explicar que não eram os mesmos pães. Que buscá-los recém saídos do forno, ainda quentinhos, com aquele cheiro de pão novinho que você sente antes mesmo de colocar os pés dentro da padaria e que volta pra casa sentindo o trajeto inteiro, ansiando por chegar em casa, servir o café que ficou passando na cafeteira enquanto eu saía para buscá-los e só então abrir o saco para poder apreciá-los é o que os faziam realmente gostosos. 

Você nunca entendeu que as sensações e pensamentos que antecedem algo, que a ansiedade, o drama, a narrativa que envolvem as situações são o que tornam elas importantes, são o que tornam elas marcantes. Por isso nunca levei a sério o seu descaso pelos pães quentinhos de manhã que as vezes eu ainda insistia em levar na cama para você, acompanhados do seu café morno. Porque é claro, você gostava de café morno. Chá morno. Pão amanhecido. Comida requentada. 

E você pode me chamar de louca mas foi exatamente por isso que a gente não deu certo. Não por causa dos pães ou do café, é claro. Mas porque com você tudo era morno, tudo era passado do ponto, tudo era pura e simplesmente cômodo. E eu entendo que você possa ser genuinamente feliz com a comodidade da sua vida. Mas o caso é que eu jamais poderia ser feliz assim e isso você não conseguia entender. 

Você não gostava das novidades enquanto eu não só as amava como precisava delas. Você odiou o curso de dança de salão, o qual fez só uma aula e ficava emburrado todas as outras noites de quarta-feira que eu chegava mais tarde porque eu decidi que continuaria indo. Você odiou o acampamento que programei pra gente no meu primeiro fim de semana de folga depois de tantos meses trabalhando direto e apesar de não ter desistido no meio, reclamou tanto o tempo todo que eu preferia que você tivesse me deixado sozinha lá. Você odiou o sofá novo do meu apartamento e até a pizza que decidi pedir de um lugar diferente pra comemorar. 

Não era dessas coisas que você gostava. Você era um fã das rotinas. Dos filmes sugeridos na netflix, das playlists prontas que o spotify lhe dava e do delivery: mas só dos restaurantes que você já conhecia até o entregador, é claro. Você gostava de tudo aquilo que já sabia como era, de tudo aquilo que não tinha riscos envolvidos. O seu medo de queimar a língua com o café quente era tanto que você se acostumou a gostar do morno. Café morno, amores mornos.

E foi por isso que a gente não deu certo. Porque você esperava que a nossa relação esfriasse, que perdesse  os riscos, que entrasse numa rotina e eu precisava de mais. Eu precisava de novidades, precisava de chama acesa. E a gente ficou tanto nesse cabo de guerra, eu puxando pra um lado e você pro outro que a corda arrebentou. Nosso relacionamento arrebentou. Ficou intragável, igual o seu café.


Você também pode gostar de: 

Você não estava disposto a me conhecer
Hoje eu lembrei de você




Nenhum comentário:

Entre Cartas e Amores - Blog de textos, comportamento, amores e resenhas literárias. Conta pra gente o que você achou ♥

Tecnologia do Blogger.